CAP. 47 – NEGRAS LEMBRANÇAS
- Bom dia!
- Bom dia Fabiano! Como está ? – Respondeu-me.
- Muito bem! Ainda melhor por ser você a tirar-me da cama!
Ela olhou-me com feições interrogativas e disse:
- Fiz mal em acordá-lo ?
Sorrindo, eu a puxei para perto e respondi:
- De forma alguma! Em algum lugar de sua memória, você se lembrou de que sempre me acordava para irmos trabalhar!
Ela olhou-me de uma forma carinhosa que me fez lembrar a minha adorável esposa de antes do acidente. Suspirei e desejei que algum milagre acontecesse e ela se lembrasse de nossa vida como era antes.
Adivinhando meus pensamentos, ela disse:
- Você deve sentir minha falta de como eu devia ser antes não é ?
- De fato! Não posso negar! Sinto falta da minha esposa, da mulher que sabe quem eu sou e me ama com a mesma intensidade! Mas não me queixo, até que você se recupere, seremos bons amigos!
- Fabiano, por quanto tempo durará a minha licença do banco ?
- Por mais quatro meses! – Eu respondi. – Por que a pergunta ?
- Por nada! – Ela abriu o sorriso seu sorriso tímido que sempre usava quando se sentia envergonhada de algo.
O sorriso se desfez para dar lugar a uma careta de dor. Imediatamente eu me levantei e a segurei. Ela sorriu e respondeu:
- Não se preocupe! É só uma dorzinha a toa! Acontece desde os meus quinze anos!
- Você sempre reclamou de gastrite e nunca quis ir ao médico tratar Carol!
- Não precisa Fabiano! É herança do remédio que eu tomei aos quinze anos para me matar!
Senti a cabeça girar e o corpo ficar trêmulo. Como ela podia falar em se matar com tanta naturalidade ? Tudo bem que ela nunca foi de fazer drama por nada, mas esse pedaço da vida dela que ela sempre fizera questão de esconder, estava me surpreendendo mais do que eu poderia imaginar. Sentei-a numa cadeira perto da cama e perguntei:
- O que aconteceu para que tentasse o suicídio ?
A expressão de seu rosto tornou-se séria e ela disse:
- Foi a melhor maneira que eu encontrei para não ter que agüentar tudo aquilo!
Olhei-a nos olhos e perguntei:
- Tudo aquilo o que ?
- A demissão do meu pai, a crise no casamento dele, o preconceiro no colégio, o afastamento dos amigos e até do meu namorado! Então lembrei que a minha irmã tinha feito um trabalho sobre drogas e guardava vários vidros de remédios no seu quarto que agora era quarto de despejo!
- E aí você encontrou os tais remédios ? – perguntei.
- Sim, eu os encontrei e tomei quatro comprimidos! Passei muito mal e fui levada às pressas para o hospital onde fiquei dois meses internada para me salvar!
Aqueles relatos eram de chocar qualquer um! Nunca poderia imaginar que ela poderia esconder uma vida tão difícil debaixo de uma imagem tão aristocrática e segura de si. Em muitas situações eu via Carolina enfrentar dificuldades com a cabeça erguida e uma expressão que mesclava paixão, orgulho e capricho. Agora eu podia entender melhor a frieza dela para lidar com situações difíceis... quem já tinha sobrevivido a um suicídio, qualquer outra dificuldade era fichinha!
Respirei fundo e perguntei:
- Depois que você saiu do hospital o que aconteceu ?
- Os meus pais me levaram para o sul onde meus avós residiam e fiquei com eles por seis meses! Depois desse tempo, eles me buscaram e fomos para o norte do país! Ficamos por lá por mais um tempo, até fixarmos residência nesta cidade onde residimos agora! Aqui eu conheci o Samuel que trabalhava numa empresa perto da escola onde eu lecionava Inglês e Francês!
Mas balançando os cabelos como que para afastar maus pensamentos, ela me puxou da cama e disse:
- Mas agora, chega de conversa fiada e vá se lavar para tomar café! Alguém precisa trabalhar nessa casa!
Sem dizer mais palavras, levantei-me e aceitei seu abraço para irmos tomar café.







1 Comments:
Noooossa, que macabro hein????
Estou ficando mais curiosa...
Tb estou com saudades, fui hoje alugar meu vestido maravilhoso pra a festa, beijosssss
Edilene.
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